quarta-feira, 15 de junho de 2011

Pai - E.S

Poderia falar tanto de ti meu pai.
Da primeira pistola de fulminantes circulares que me ofereceste para me calares do pranto que trazia quando cegamente me resgataste.Sabes pai, nesse menino de dois anos já existia um homem.
Poderia falar de dois meninos graúdos que mais tarde entraram pela porta.
De uma "mãe imposta" em todos as medidas e posições.
Poderia falar nas noites em que me afagaste, abraçando-me na cama sem me deixar respirar.
Com a mesma mão que adormecia sobre mim,segurava noutras alturas os cintos e cabos para vincar a minha pele macia.
Da tua mão aberta, tudo se apagou...Recordo as mesas partidas , os narizes, os gritos e as bocas a sangrar.
Das noites descobertas de conforto... Em pranto amargo e salgado.
Hoje pai , nem sei que diga das memórias que trago. Dos Natais , Páscoas e outras alturas de alegria .Mas a festa era na porta ao lado.
Da guerra que fazias e das baixas que causavas todos os dias.Ostracizaste, destruíste TUDO.
Não sinto saudade , sinto mágoa .Sinto o desespero de não estares vivo para te poder dizer tudo .Guardo a raiva do meu luto, de nem sequer  teres vivido o suficiente para  ter oportunidade de te dizer o quanto me magoaste.
Hoje resta o cheiro a formol do teu corpo frio prostrado naquele caixão que quase tombei de raiva, das cicatrizes na tua face que nunca irão sarar.Do cheiro fétido da terra que cobriu o teu caixão .

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